FAQ: Ortografia

Porque dizedes que a ortografia ILG-RAG é espanhola?

Sendo a atual ortografia do castelhano muito mais antiga, a ortografia ILG-RAG coincide com ela na maioria dos usos, e quando nom coincide está muito influída. O caso mais emblemático é o Ñ. Por outro lado, os seus valedores nom negam este facto.

Na introduçom das Normas ortográficas e morfolóxicas do idioma galego da Real Academia Galega (2ª ediçom, 1971) pode-se ler:

A actual ortografía galega, como non podía menos de suceder, formóuse sobre a castelá, unica que os galegos aprendían nas escolas ao tempo que o Renacimento das nosas letras creóu a necesidade dunhas normas da espresión escrita. Esta ortografía víuse obrigada a se afastar do seu modelo no caso dos fonemas consonánticos inesistentes no español oficial. Os intentos de estender estas innovacións aos fonemas vocálicos, tropezaron con dificuldades que adiaron a solución do problema. Outras custións de menos importancia foron tratadas de diversos xeitos; pero as solucións en competencia foron unificándose como consecuencia do contraste práctico, e así chegamos á situación actual. Ésta preséntanos unha ortografía susceptíbel de perfeición, xa que non reflexa con suficiente precisión o vocalismo galego, e amosa algunha outra impropriedade como consecuencia de non ter xurdido naturalmente do fonetismo da fala, senón como unha adaptación da ortografía de outra lingua. Aínda con esas chatas, ten a ventaxa de ser de doada asimilación para todo aquel que coñeza a ortografía oficial, é decir, para todo galego non analfabeto; a ventaxa de vir funcionando desde hai tempo, de xeito que a xente adquiríu o hábito da mesma; a ventaxa, afinal, de non escluir pola sua natureza reformas futuras inspiradas polas peculiaridades do galego, xa que a pronuncia do castelán moderno e do galego moderno son suficientemente afíns para que calquer rexistro de distinción poida ser estabelecido sen necesidade dunha alteración total do sistema.

 

Na Península ibérica existem três grandes tradições ortográficas nascidas na Idade Média e que fôrom três formas diferentes de adaptar a ortografia latina às novas línguas que estavam a surgir derivadas do latim. Estas novas línguas continham fonemas que nom existiam na língua original e os escrivãos das cortes de Lisboa, Toledo e Aragom resolvêrom de forma ora diferente, ora similar. Quase todas as ortografias peninsulares som versões destes primeiros modelos.

  Português   Catalám   Castelhano
Catalunha Catalunya Cataluña
Guerrilha Guerrilla Guerrilla
Feliz Feliç Feliz
Praça Plaça Plaza
Pressa, Presa Pressa Prisa, Presa
Quantidade Quantitat Cantidad
Proibido Prohibit Prohibido
Caixa Caixa Caja
Perdão Perdó Perdón
Parcela Parcel.la Parcela
Checo Txeco Checo
Pê, péà Allò També Paté

Línguas e variedades com base na…

  • ortografia portuguesa: português de Portugal, galego internacional (galego reintegrado, português da Galiza), mirandês.
  • ortografia catalã: catalám da Catalunha, Baleares, Roselhom, Alger e Valência, valenciano normas de Castelló ou de 32, valenciano normas del Puig.
  • ortografia castelhana: castelhano (espanhol), basco, aragonês, asturiano, leonês, galego ILG-RAG.
  • ortografia ocitana: aranês.

O galego elaborado polo Instituto da Língua Galega (ILG) e avalizado pola Real Academia Galega (RAG) e aquele que usa a administraçom pública galega está baseado na ortografia castelhana com algumas leves modificações: eliminaçom da letra Y (Tui) e eliminaçom do G perante E,I e do J sendo usado em seu lugar a letra X (Xanela, Xente, Xineta, Xogar, Xuntar).

A dependência da ortografia castelhana é especialmente notória em dous aspetos:

  1. O uso do x em palavras como xente ou xirar deveria dispensar o uso de u em palavras como guerra ꟾgeraꟾ ou guitarra ꟾgitaraꟾ. A letra u fai sentido em sistemas ortográficos que usam o g para gente ꟾʃẽteꟾ ou girar ꟾʃirarꟾ pois é a forma de evitar que leamos gerra ꟾʃeraꟾ ou gitarra ꟾʃitaraꟾ. No modelo normativo do ILG-RAG esse u nom tem qualquer utilidade. Nom por acaso, em basco escreve-se gerra.
  2. Os signos de acentuaçom. Tendo o castelhano apenas 5 vogais (a, e, i, o, u) é natural que o acento só sirva para marcar a sílaba mais forte: bebé, bebe, vértice. Na nossa língua (ou na catalá) existem vogais abertas e fechadas e por isso habilitam-se acentos para marcar o grau de abertura: pê, pé. Em galego ILG-RAG usa-se o mesmo acento (´) para as vogais abertas: médico, bebé que as fechadas: bébedo, portugués dificultando a distinçom de ambas.

O seu antecedente é o galego utilizado durante o séc. XIX por pessoas que foram alfabetizadas em castelhano e era a única ortografia que dominavam. Tecnicamente, como demonstra esta FAQ, o uso da ortografia espanhola é apenas uma opçom.

Para aprofundar sobre a ortografia na Idade Média veja-se a Introducción a la ortografia iberorromanica medieval de Xavier Frías Conde.

Ver também: Ortografia ILG-RAG comparada com outras ortografias romances


A ortografia oficial é a que melhor se adapta à nossa forma de falar

Todas as ortografias recolhem doses de etimologismo e de foneticismo. Se o critério fosse a facilidade o resultado era manifestamente melhorável. Podia-se aplicar a cada fonema uma letra: kasa, zertamê, êskóla, gêŕa, aber, kêixô, uískê.

Ora, o certo é que o que estava sobre a mesa era adotar a ortografia do castelhano com leves adatações, como vimos antes. Por outras palavras, usar a mesma ortografia da língua que está a substituir a nossa e obviar a possibilidade de aproximar-se à ortografia que usam outras variedades da nossa língua que tivérom êxito social (Portugal e Brasil).

A ortografia galego-portuguesa é objetivamente mais difícil e no entanto tem várias vantagens estratégicas:

  1. Marca a soberania a respeito do castelhano tornando a nossa língua num ente tam diferente do castelhano como o poda ser do francês ou do italiano.
  2. Tem uma comunicabilidade maior, permitindo a fluência comunicativa com 230 milhões de pessoas e as suas culturas e produtos.
  3. Permitiria exportar em maior medida as nossas produções e importar produtos na nossa língua que permitiriam tornar o castelhano mais prescindível.

Enfim, o mais fácil nem sempre é o melhor.

Porque dizemos que a ortografia portuguesa é objetivamente mais difícil? Quando uma sociedade está alfabetizada numa dada língua, falar em objetividade é difícil. Se uma sociedade está habituada a escrever [libro, prohibido, raza, congreso, inglés], sempre será mais fácil do que escrever [livro, proibido, raça, congresso inglês].

Mesmo assim, a ortografia portuguesa é mais etimológica do que a castelhana, portanto, é menos dedutível a partir da fala.

No entanto, a ortografia portuguesa adapta-se melhor às falas galegas do que às falas de Portugal, do Brasil ou de Angola. Por outras palavras, “objetivamente” uma pessoa da Galiza comete menos erros ortográficos do que alguém do Brasil, Portugal ou Angola como se pode ver na seguinte tabela.

Natureza do erro Exemplos GZ Porto (Pt) Lisboa (Pt) São Paulo (Br)
 = Á Cámara por Câmara S N N N
E átono inicial → I Imitir por Emitir N S S N
E átono final → I Verdadi por Verdade N N N S
ES- átono inicial → IS Iscola por Escola N S S N
E + vogal tónica → I Tiatro por Teatro N S S S
E átono → Ø Frida por Ferida N S S N
O átono → U Opurtuno por Oportuno N S S N
OU → O Lovar por Louvar N N S S
EI → AI Paixe por Peixe N N S N
EI → E (-EIRO) Janero por Janeiro N N N S
ÃO> AO, OM, AM Verao, Tam por Verão, Tão S N N N
L final de sílaba → U Animau por Animal N N N S
S = SS Z = C,Ç Messa, Dicer por Mesa, Dizer S N N N
S = Z C-/Ç = SS/S- Belesa, Sera por Beleza, Cera N S S S
EX + vogal → IZ Izame por Exame N S S N
Trocar S e Z final de sílaba Des, Luíz por Dez, Luís S/N S S S
-agem → -age Viage por Viagem S N N N
X = CH Brucha, Broxe por Bruxa, Broche N S S S
B = V Libro por Livro S S N N
G, ei, i/J = X Faija por Faixa S N N N
SC → X Pixina por Piscina N S S N
SC → SS/Ç Picina por Piscina N N N S
-R desaparece Cantá, Amô por Cantar, Amor N N N S
NÚMERO TOTAL 6/7 10 12 10

Porque havemos de escrever assim, se aqui nunca se usou nh, lh ou ç?

Na Galiza usárom-se todas essas letras. Basta ver qualquer texto medieval para verificar que a ortografia usada é substancialmente a mesma que hoje usam em Portugal ou no Brasil, com as lógicas diferenças de cinco séculos de distância temporal.

Os hábitos ortográficos que temos na atualidade som lógicos, porque quando começamos a escrever galego de novo, só conhecíamos a ortografia da língua em que fôramos alfabetizados. Os primeiros autores e autoras do século XIX nem sequer conheciam a existência de um legado literário comum à Galiza e Portugal.

Mas nom se trata de olhar para atrás. O que devemos perguntar-nos é se seria benéfico mudarmos esses hábitos para comunicar mais eficazmente com o mundo, e também para que mais mundo comunique connosco.


A ortografia nom é assim tam importante

Se assim fosse, o galego só teria uma ortografia (seja esta a castelhana ou a portuguesa).

Tecnicamente costuma dizer-se que a ortografia é uma convençom, um acordo, e que o facto de usar um ou outro sistema ortográfico é circunstancial. Os factos reafirmam esta perceçom na medida em que som numerosos os casos de:

  1. a) Reformas ortográficas.
  2. b) Mudanças identitárias de ortografia.

O certo é que tanto num caso como no outro está longe de ser uma questom pacífica. No que di respeito às reformas ortográficas, os casos portuguêsalemám ou castelhano dam fé disto. Eliminar umas letras ou acrescentar outras pode tornar-se num conflito de dimensom importante.

O caso galego entraria num outro grupo de reformas onde a mudança de ortografia atinge a natureza da língua, isto é:

  • quem a fala?
  • com que outras línguas ou variedades se relaciona?

O caso do azeri, do moldávio ou do valenciano evidenciam que a ortografia é, com certeza, importante. É uma forma de situar-se no mundo, integrar-se num ou noutro sistema linguístico e cultural.


A ortografia reintegrada é oficial?

Nom. Realmente nom há nenguma norma oficial, nem sequer para o castelhano, mas a ideia de as normas ILG-RAG serem oficiais está bastante estendida socialmente.

Posto o assunto nestes termos, nós consideramos que, realmente, a norma reintegrada é oficial em muitos países através do português, e isso dá-lhe muito valor, porque abre às pessoas que a usam na Galiza (cada vez mais) umas possibilidades comunicativas que a norma considerada oficial nom tem. O que nós pretendemos é que, reivindicando-a através do uso, acabe por ser reconhecida como outra possibilidade de galego. Assim, democraticamente, os galegos, particularmente, e o povo galego, em geral, poderiam optar com liberdade pola opçom mais conveniente.

Em termos legais, uma “disposiçom adicional” à Lei 3/1983, de Normalizaçom Linguística, di o seguinte ao respeito: “Nas cuestións relativas á normativa, actualización e uso correcto da lingua galega, estimarase como criterio de autoridade o establecido pola Real Academia Galega. Esta normativa será revisada en función do proceso de normalización do uso do galego”.

Como assinala o professor António Gil Hernández, o facto de estimar como autoridade o critério na RAG nom significa que o critério de autoridade da RAG seja o ÚNICO aceitável.

Uma discriminaçom dos cidadãos com base na ortografia estaria, aliás, a violar os artigos 10.2 e 14 da Constituiçom Espanhola, bem como o artigo 5.4. do Estatuto de Autonomia da Galiza.


É possível ser reintegracionista em galego ILG-RAG?

É. É possível ser reintegracionista, apesar de se escrever em ILG-RAG.

Ainda que o reintegracionismo, tal e como o conhecemos hoje, nasceu outorgando um papel central à ortografia, na atualidade envolve outras questões, como a integraçom sociológica e cultural da Galiza no espaço dos países lusófonos. Muitas pessoas concordam com o papel estratégico dessas relações internacionais para o galego, embora nom vejam a urgência ou a idoneidade de começar pola ortografia.

Há também aqueles que resolvem escrever em normativa ILG-RAG simplesmente porque as circunstâncias som demasiado adversas para as outras opções – nomeadamente no âmbito profissional –, mas que mudariam de ortografia se o reintegracionismo fosse a normalidade social e institucional.

Mesmo já há um livro intitulado: Como ser reintegracionista sen que a familia saiba, que promete: axudarte a mellorar o galego e a confluír co portugués sen necesidade de mudares a ortografía.

O reintegracionismo que já anda a remar numa canoa nom nega o reintegracionismo que outros alviscam no horizonte.

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