Desapareceriam as palavras galegas se triunfassem as vossas posturas?
As palavras galegas levam séculos a desaparecer substituídas polas castelhanas. Desaparecem sobretudo aquelas palavras que, por serem mui diferentes das castelhanas, dificultam a comunicaçom com falantes de castelhano ou falantes de galego mui castelhanizados. Palavras como porto, pequeno, castelo ou terra som parecidas às correspondentes castelhanas e nom criam obstáculos à comunicaçom. As que nom tenhem essa “sorte” caem em desuso e mesmo recebem a alcunha de estrangeiras (lusismos) ou invenções: segunda-feira, bochecha, polvo, acanhado, alfaiate ou armadilha. Como escreveu, na revista Nós, a linguísta alemá Margot Sponer:
Cantas veces por empregar eu as verdadeiras formas galegas tomáronme por portuguesa!
Algunhas notas dos meus estudos sobre filoloxía galega”, NÓS, no 37, 1927
A estratégia reintegracionista promove a revitalizaçom do léxico perdido ou moribundo como é o caso paradigmático dos dias da semana bem como preencher as nossas lacunas lexicais, nom com o castelhano, mas com as outras variedades do nosso sistema lingüístico. É o caso das realidades modernas, aquelas aparecidas desde que acabou a idade média.
Para aprofundar sobre a natureza do léxico na Galiza recomendamos:
Dias da semana
Umha das pegadas mais originais que deixou o período suevo na língua galego-portuguesa tem a ver com um clérigo chamado Martinho de Dúmio. Caraterizou-se pola sua ortodoxia cristã, que chegou ao ponto de questionar os nomes dos dias da semana por terem estes uma base pagã, na verdade, romana:
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Lunae dies (Dia da Lua),
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Martis dies (Dia de Marte),
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Mercurii dies (Dia de Mercúrio),
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Jovis dies (Dia de Júpiter) ,
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Veneris dies (Dia de Vénus),
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Saturni dies (Dia de Saturno) e
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Solis dies (Dia do Sol).
Vai ser Martinho de Dúmio o primeiro a utilizar um sistema de base eclesiástica: Feria secunda, Feria tertia, Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta, Sabbatum (do hebreu Xabbat), Dominica Dies (Dia do Senhor). Era na verdade um sistema numérico, onde se começava a contar a semana a partir do domingo, dia em que decorria a feira e assim até chegar ao sábado, o último dia da semana.
Este sistema foi o comum no Reino da Galiza. Com o avanço da língua para sul, tornou-se o sistema de toda a faixa ocidental da península. Hoje é a única forma de nomear os dias em Portugal e no Brasil e umha das maiores originalidades da nossa língua.
Repara no quadro com a palavra Segunda-feira redigida em diferentes línguas:
| Latim: | Dies Lunae | Alemám: | Montag | Bretom: | Dilun |
| Catalám: | Diluns | Escocês: | Monanday | Irlandês: | Luan |
| Castelhano: | Lunes | Inglês: | Monday | Eslovaco: | Pondelok |
| Italiano: | Lunedi | Neerlandês: | Maandag | Polaco: | Poniedziałek |
| Filipino: | Lunes | Finlandês: | Maanatai |
Ora, que se passou na Galiza?
«Os días da semana desínanse da seguinte maneira: lus, martes, carta feira,quinta feira, sesta feira, sábado e domingo. En algús escritores temos visto que a carta, quinta e sesta feira, súplena coas palabras mércoles, xoves, vernes»
Lugrís Freire, Gramática do Idioma Galego (1922), p. 117.
O filme acima, realizado pola Gentalha do Pichel, mostra como as formas tradicionais (segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira) continuam vivas do norte ao sul da Galiza, ainda que só entre as pessoas mais velhas das nossas comarcas. O título do filme, Quarta-feira Logo Vem, evoca uma copla que ainda é reconhecida por muitas pessoas que já deixaram de usar estas fórmulas no dia-a-dia.
Podes aprender mais sobre estas designações dos dias da semana, com mapas dialetológicos, no sítio web feirando.gal.
Quando existem palavras galegas, porque usades as portuguesas?
Essa oposiçom entre palavras galegas e portuguesas é menos comum do que podas pensar. Acontece que é relativamente fácil delimitar o que é uma palavra castelhana e uma inglesa.
Mike: «Que onda, entonces que? te wacho en la party? Recuerda que es no cover.»
Maria: «Of course, pasas a mi house por mi.»
Mike: «Ok. Entonces ahí nos wachamos my darling.»
Tirado da es.wikipedia, em spanglish.
Ora, para delimitar entre as palavras que usamos habitualmente na Galiza quais som castelhanas e quais nom o som nom chega com um olhar superficial. A similitude entre a nossa língua e a castelhana é bastante grande e, se a isso unimos o interiorizada que temos a segunda delas, torna-se difícil a olhos nus discernir o castelhanismo.
Assim sendo, o que acontece a maioria das vezes é usarmos palavras da nossa língua para denominar realidades que outras pessoas denominam com palavras castelhanas: roçadora (para desbrozadora), maçarico (soplete), debulhadora (para cosechadora), colapso (pájara), cadeirom (sillón), mola (muelle) ou cartom (tarjeta).
Seja como for, quando existem palavras galegas de escasso uso no resto da lusofonia, fazemos uso delas como podes testar com aginha, avondar ou argalhar.
Galicia ou Galiza?
Nom há dúvida alguma de que a forma correta em castelhano é Galicia.
Por sua vez a forma originária galega é Galiza, e assim o rei Afonso X de Castela, o último rei a ser educado na Galiza (plenamente bilíngue é autor/promotor de obras tanto em galego como em castelhano), quando escreve em galego usa sempre Galiza entanto em castelhano emprega Galicia.
NOTA: No galego medieval além da maioritária Galiza também se usarom as grafias Galiça, Galliza e Galliça. Em castelhano escrevia-se inicialmente Gallizia, passando depois a Galizia e finalmente Galicia.
Após o submetimento do reino da Galiza por Isabel I de Castela, a forma galega deixou-se de usar durante séculos na própria Galiza, sendo substituída pola forma castelhana. Na história da humanidade é muito comum umha mudança do poder político acarretar uma mudança de denominaçom, de jeito que a dos vencedores impom-se sobre a dos vencidos, mesmo entre estes.
No primeiro terço do século XX as irmandades da fala e a geraçom Nós recuperam a forma Galiza, que passa a ser usada normalmente dentro dos círculos galeguistas. O exemplo por excelência é a obra de Castelao, o Sempre em Galiza, mas ficárom registados muitos outros exemplos.
Por sua vez, o movimento nacionalista que surge nos anos 1960s e que se consolida já na 2ª restauraçom borbónica vai empregar muito maioritariamente a forma Galiza.
Para mais informaçom recomenda-se o estudo do professor Montero Santalha: O nome da Galiza.
Queredes que as pessoas falem com ‘lusismos’?
As pessoas galegofalantes já falam com lusismos o dia todo, essencialmente porque falam a mesma língua que os portugueses e as portuguesas.
Importante seria desvendar o que é um lusismo. Socialmente tende a usar-se esta denominaçom para toda palavra galega sentida como pouco natural, inventada ou trazida de Portugal: Galiza, polvo, estrada, prato, até ou geonlho seriam lusismo. Em geral, aplica-se a palavras galegas que caíram em desuso. Assim sendo, qualquer palavra galega tem a hipótese de se tornar um lusismo. Pode acontecer que algum dia o sejam palavras como onte, sorte ou “se quadra” dada o uso extenso que hoje temos de aier, suerte ou ao melhor/quiçá.
Desde o galego autonomista tacha-se de lusismo muitas palavras que na verdade som formas genuínas para designar realidades que na Galiza costumamos nomear com a forma castelhana. Isto é mais evidente no caso das realidades modernas, como o léxico de roupa (cachecol para o castelhano bufanda), transportes (carro/coche), construçom (betom/hormigón), eletrónica (cabo/cable), judicial (sentenciar/fallar) ou desportos (cesto/canasta).
Por que usades palavras que já nom se usam ou nunca se usárom?
Porque para nós o galego é 1) uma língua, 2) oficial em vários países.
O facto de ser uma língua implica que quando tem palavras genuínas para nomear realidades nom tem muito sentido promover as que som próprias de outra língua, precisamente a que está a substituir a nossa. Fazer isto implicaria que nom possuímos uma língua mas uma variedade do castelhano.
Que se pode fazer evidenciam-no palavras como Deus, século, ata/até, povo ou dúvida, todas elas substituídas polas formas correspondentes castelhanos mas às quais hoje ninguém nega o estatuto de galegas.
O que nom quer dizer que se lhe negasse no passado. No galeguismo predominou uma linha que tinha o português como referente de integraçom mas também existiu outra linha que o tinha como referente de oposiçom dando ao castelhano um papel primário na elaboraçom do padrom de língua. Sirva como exemplo disto último:
¿Quien no dice que el vocablo Deus no es sinó portugués, como lo son también olle, dúvida y otros que vemos usar con frecuencia? (…) No se cansen, pues, en acumular vocablos: bien se está con que muchos de ellos no salgan de la estructura castellana, puesto que no desdicen no le quitan el mérito à la gallega.
CUVEIRO PIÑOL, [1895]
Sirva como exemplo do português como referente de integraçom estoutro texto:
Debemos falar neste galego de fronteira, pra a maor comprensión das xentes? Debemos falar un galego literario e centífico, ainda que non se nos entenda ben, que restabreza as formas primeiras e renove o idioma co zugo do seu propio cerne? Debemos falar nas aituazóns populares en castelán, reproducindo o roteiro do pobo irlandés que fixo a sua propaganda emancipadora en língoa estrana, co-a arela da máisima efeitividade? Debemos, ao escrebir, suxeitar-nos no posibre ao xeito portugués pra alongar os lindeiros da nosa xeografia idiomáteca? (…) En primeiro termo coido que deberíamos suxeitarnos no posibre ao portugués, tanto máis que na maor parte desta posibilidade ficaríamos máis dentro das nosas formas orixinarias: Deus por Dios; mai por nai; perto (cerca) por preto (que ten outra siñificazón: negro); sinos por campás; xanela por ventá ou fiestra; etc., etc., e mellor ainda si nos suxeitásemos á ortografía lusitán; centíficamente este é o noso camiño, e políteca i-económecamente os nosos éidos eistenderíanse nun dos máis vastos mundos lingoístecos. A este respeito sería moi comenente unha xuntanza de filólogos lusitáns e galegos que unificasen, no posibre, as nosas língoas.
ÁLVARO DAS CASAS, [1934]
O facto de ser uma língua que excede os limites do estado espanhol implica que para aquelas palavras que entrárom nas línguas na idade moderna e na contemporânea, temos uma soluçom genuína em Portugal ou no Brasil.
Que se pode fazer evidenciam-no palavras como autoestrada, para-lamas, quadro de pessoal, alto-falante ou plataforma, que som promovidas desde a oficilidade em lugar das correspondentes castelhanas (autopista, guardabarros, plantilla, altavoz e andén).
Em resumo, o que promovemos para Galiza é o mesmo que outras entidades promovem para Valência ou para o espanhol dos estados Unidos.

