Xosé Carlos Veiga: “Viver em galego da RAG era parecido a tornar-se independente dos pais sem ter salário próprio”

Xosé Carlos Veiga é ferrolano mas cresceu em Prismos, uma pequena aldeia que lhe mostrou que o galego não estava apenas na TVG. Recentemente participou em encontros académicos de teor internacional onde a interação com espanhóis, portugueses e as mais diversas nacionalidades, com Estado e sem ele, deu para muitas sinfonias diferentes. Quando decidiu tornar-se galego falante a tempo completo, reparou que com o galego-castelhano era impossível. Xosé Carlos é doutor em História Contemporânea e na sua tese virou-se paraos usos sociais da história e seu papel na legitimação de identidades políticas. À hora de avaliar a ação da Junta, julga que para mudar o estado do galego podia dispor de um martelo pequeno, ou até de uma picareta mas preferiu sentar ao sol e deixar atuar o Espírito Santo.

Xosé Carlos é de Ferrol, como vários dos últimos sócios. Na tua família o castelhano está instalado já desde os teus avós. Que lembras, da tua infância, em termos de usos e atitudes a respeito do galego e do castelhano?

Na minha infância e adolescência experimentei uma situação alternativa à das pessoas nativas em galego. A língua da casa era o castelhano, e também a de todos os meus amigos e a maior parte dos conhecidos dos meus pais. Não lembro ter amigos galego-falantes quando era criança. Não porque rejeitasse; simplesmente quase não havia, ou talvez trocassem de língua comigo. O galego existia, mas como um elemento externo e de algumas coisas específicas. Para os meus familiares, era a língua de algumas piadas e brincadeiras, de ditados, de dizer coisas grossas ou de imitar pessoas de ambientes rurais ou até pouco inteligentes. Tinham uma imagem muito negativa dele, até ao ponto de que para mim estava proibido falá-lo demais na casa, e quando tive as primeiras tentativas de fazê-lo apanhei castigos e discussões. Eu sei que a intenção deles não era ruim, pois achavam realmente que o castelhano me daria mais oportunidades. As pessoas são filhas do seu contexto.

Eu via-o de um outro jeito. À diferença dos meus pais, sou da geração que cresceu com galego na escola e na Junta, na televisão, nos sinais, em algumas propagandas, livros… Para mim era mais bem isso. Uma língua de coisas sérias; de falar com os professores, de certames de poesia e papelinhos que a minha mãe assinava para eu ir de excursão. Falar galego era parte dos códigos de formalidade, e trocávamos para o castelhano quando queríamos expressar algo mais pessoal. Isso era o que faziam muitos adultos à minha volta.

O rosto mais humano do galego era o dos meus vizinhos. A minha família é toda de Ferrol, mas os meus pais mudaram-se para uma pequeníssima aldeia chamada Prismos, que foi onde me criei. Nela os únicos moradores estáveis éramos nós e uma outra família que se converteu praticamente em parte da nossa. Ali a situação era diferente. Com eles aprendi os nomes de muita coisa. Era castelhano-falante, mas para mim as zarzas, os helechos e os robles não existiam. Eram as silvas, os felghos e os carvalhos. No verão passava o dia todo na casa deles. Ajudava-os a recolher as batatas, e vinham muitas pessoas da paróquia para a mesma coisa, quase todas galego-falantes. Ia com o Luís no trator, levar as ovelhas, recolher os ovos, sacrificar os coelhos e armazenar a erva seca. Celebrávamos a Festa do Patrão e comíamos churrasco a fartar. Juntávamo-nos a eles para o Natal e o São João. E tudo o faziam em galego. Ali a língua não era aquele código formal da escola ou da TVG, nem um ato reivindicativo. Era um elemento vivo e normal, associado, no meu olhar, a coisas boas.

Em 2023-24, uma série de viagens por motivos académicos, abrem uma janela.

Tomei parte em vários eventos internacionais. Um deles juntou mais de 150 nacionalidades diferentes, dezenas de milhares de jovens que eram encorajados a partilhar a sua cultura e mostrar os símbolos da sua terra. Eu era parte da delegação espanhola, na que havia castelhanos, andaluzes, catalães, bascos… Mas todos éramos classificados, desde o olhar de fora, simplesmente como “espanhóis”, e perguntados pelo flamenco, a tortilha, o Real Madrid e algumas palavras engraçadas em castelhano. Muitos dos meus companheiros aceitaram isso. Eu levava comigo uma bandeira galega e várias lâminas com fotos da Galiza, da nossa gastronomia, música, exemplos literários, história… E isso chamou a atenção de muitas pessoas que também pertenciam a povos sem Estado dentro de outros países. Falei com curdos, pessoas do Cáucaso, uigures, guaranenses, palestinianos, incaicos, berberes… A maioria percebia a situação da cultura galega e mostravam genuína surpresa pela sua riqueza. Uma rapariga uigur do Cazaquistão dizia que os russos recusam pronunciar os nomes das suas cidades na língua local, e utilizam os exónimos conscientemente como um jeito de provocação. Outra, berbere da Argélia, queixava-se da situação de discriminação que vivia a sua cultura no país. Esses encontros foram a melhor demonstração que pude ter de que os nossos problemas como cultura menorizada não são exclusivos da Galiza, mas fenómenos muito comuns e partilhados com outros povos que a história não concedeu o privilégio da estadualidade.

Entre toda essa diversidade cultural, os encontros com angolanos e brasileiros foram os mais surpreendentes para mim. Porque percebia muito bem o seu sotaque, e porque resultava incrível conseguir falar em galego com pessoas de lugares tão distantes. Até esse ponto, nos vários dias que durara o evento, tinha-me sentido como representante acidental —e não ótimo — de uma cultura pouco conhecida e relativamente isolada. Muita gente, sobretudo da Europa Ocidental, ouvia as minhas histórias como uma curiosidade, mais um exotismo espanhol. O encontro com os amigos lusófonos transmitiu-me a sensação contrária: a Galiza não está sozinha no mundo, e a sua cultura não é nenhuma rareza excecional. Lembro alguns outros momentos de jeito muito significativo. Quando foi o momento de cada nação convidada participar de um desfile para mostrar quem lá estava representado, parte dos espanhóis sacaram as suas bandeiras e começaram a representar touradas e cantar canções como Que Viva España. Isso provocou que parte dos companheiros decidissem não participar do desfile. Ainda conservo uma fotografia muito representativa daquilo. Eu falei com os portugueses, que não só me permitiram juntar-me à sua delegação no desfile, mas quiseram levar a bandeira galega diante, do lado da portuguesa. Não sabiam que canção cantar —outros estavam a cantar as suas— e paradoxalmente fui eu que lhes tive de lembrar a letra do Grândola, que cantámos juntos. Outra situação que fica na minha memória é um argentino a agarrar-me por surpresa enquanto berrava “UN GALLEGO, UN GALLEGO!” e depois a sua delegação pedir-me tirar fotos com a bandeira galega e um vídeo a explicar a origem da sereia e falar um bocadinho de Castelao. Depois russos a aprender a Riangeira, um irlandês a ficar maravilhado pelo parecido das nossas terras, um alemão da Saxónia que reclamava mais autonomia para a sua… enfim, sinto-me muito afortunado por todas as vivências que lá tive.

Aquilo foi, para mim, uma evidência da importância da identidade galega para situar-nos no mundo, e do bem recebida que é a nossa cultura quando somos quem de apresentá-la no seu carácter genuíno. Por isso, inclusive com todas as dificuldades que ainda tinha, ao voltar desse evento decidi falar galego sempre.

Ora, logo te dás conta que viver em galego pode ser um desafio…

Sim. Como disse, na minha casa era muito difícil tentar desenvolver uma competência normal em galego. Quando cheguei para estudar em Compostela, não acreditava que pudesse conseguir ser eu próprio nessa língua. Porque falar uma língua não é apenas comunicar. É ter um vocabulário suficiente, um conjunto de expressões, gírias e referentes que permitam à pessoa expressar todas as faces e matizes do seu pensamento. Os meus estavam construídos em castelhano, e não conseguia fazer o mesmo com o galego RAG. É muito difícil integrar uma palavra aprendida num livro se depois não a vemos por lugar nenhum. E o problema era justo esse: tinha alguns companheiros galego-falantes, mas a maior parte do galego que ouvia e consumia no meu dia a dia continuava a ser aquele código de ambientes formais, espaços culturais e documentação do governo autonómico.

Quando chegava a casa depois de trabalhar o dia todo na Faculdade, queria assistir vídeos engraçados no YouTube; ouvir músicas modernas; ler algo de imprensa variada; jogar videojogos; seguir gente nas redes sociais… Muitas dessas coisas começaram a existir de jeito massivo ainda nos últimos anos graças ao esforço coletivo de milhares de criadores. Outras, de facto, já existiam, mas eram muito pouco variadas. No geral, viver em galego da RAG era parecido a tornar-se independente dos pais sem ter salário próprio: afinal, precisava do castelhano para quase tudo. Os meus companheiros galego-falantes tinham uma vida dual, porque falavam galego e consumiam castelhano. Para eles era menos conflituoso, já que tinham competência nativa. Mas eu, se queria realmente integrar a língua, necessitava poder construir um ecossistema que suportasse um estilo de vida normal, e isso não era possível na altura, e ainda hoje existem limitações muito importantes. Assim, decidi começar a comprar livros de editoras portuguesas (a Bertrand faz envios à Galiza), procurar criadores lusófonos, colocar dobragem portuguesa nos filmes e séries, ouvir mais música em português… Existia uma barreira inicial que tinha a ver com ter pouco costume com o sotaque —o qual já me aconteceu também na própria Galiza alguma vez— e com algumas normas ortográficas e vocabulário diferente. A compreensão demorou poucas semanas a sentir-se completamente fluida e familiar. A competência escrita e na expressão demorou alguns meses, e ainda hoje estou a trabalhar nalgumas coisas. Porém, em nenhum caso senti que estivesse a aprender uma língua estrangeira. Era mais como reaprender um galego diferente. Conhecer amigos portugueses e brasileiros foi muito de ajuda.

Outro dos motivos para olhar para o padrão português, e para o português como inspiração de muita coisa, foi a consciência da origem comum, e das causas históricas da atual separação. Quer dizer: uma parte da escolha foi por pragmatismo, enquanto outra foi por convicção. Durante muito tempo estudei na escola que desde o século XVI, na Galiza, não tínhamos referências próprias. Enquanto em castelhano podia recorrer ao Cervantes ou em inglês ao Shakespeare, em galego não tinha muita coisa entre as Cantigas e o Rexurdimento. Aprender sobre a comunhão galego-portuguesa mudou isso. Sim, a nossa língua perdeu grande parte da sua tradição escrita formal, foi perseguida e menorizada aquém do Minho. Mas, ao Sul, continuou a desenvolver-se com a proteção de uma monarquia e depois de um Estado moderno. Por isso considero que, do mesmo jeito que Cantares Gallegos é uma peça fundamental para a nossa cultura, Os Lusíadas também pode sê-lo. Que o galego-português ganhou uma gramática em 1536, e um dicionário em 1712. Se quero ler poesia do século XX na minha língua tenho Fermín Bouza Brey e Chus Pato, claro, e também Fernando Pessoa ou Sophia de Mello. Aprender galego-português não foi renunciar ao galego, como alguns reclamam com desconhecimento. Foi ampliar o universo da língua, do mesmo jeito que um falante de castelhano considera García Márquez ou Ida Vitale como parte do seu, assiste a filmes dobrados ao espanhol latino e ouve músicas hispano-americanas. O reintegracionismo permitiu-me, enfim, viver em galego quase plenamente, com independência e naturalidade.

Xosé Carlos é doutor em História Contemporânea, membro do Grupo de Investigação em História Política e dos Nacionalismos da Universidade de Santiago de Compostela. Por onde rumam as tuas pesquisas?

Identidade, história e conflito social. Os meus primeiros trabalhos foram sobre representações da Segunda Guerra Mundial em produtos culturais. Já na minha tese de doutoramento preocupei-me pelos usos sociais da história e seu papel na legitimação de identidades políticas. Hoje virei-me para o estudo de grupos da chamada extrema direita, também com esta perspetiva identitária e particularmente interessado pela sua relação com o passado.

Em todo o movimento nacional que carece de Estado, a emoção tem um papel importante. Em que medida a emoção pode ser positiva, e negativa, para uma língua como a nossa

Emoções são inerentes a todo o que o ser humano faz, e de facto amiúdo são o que dirige o esforço da razão. São muito mais motivantes para a ação do que qualquer argumentação lógica, porque o sistema límbico possui uma capacidade enorme de mexer na perceção e interpretação das coisas. A sua presença não é realmente negociável; trata-se de uma parte central do nosso pensamento, gostemos mais ou menos delas.

A emoção é positiva quando fomenta estratégias adaptativas de auto-preservação, o desfrute e o engajamento com os outros. Ter vontade de manter a nossa cultura é algo que emerge da emoção antes do que do compromisso político, serve como um combustível para o segundo quando não se vislumbra um ganho imediato, quando entram as dúvidas. Porém, também pode tornar-nos pessoas imprevisíveis, arbitrárias e afastar-nos da realidade. No caso reintegracionista, as emoções podem levar a negar mudanças normativas simplesmente porque se entendem como alheias, sem avaliar os seus benefícios reais ou as suas origens históricas. Entender isto é fundamental para qualquer movimento social que queira ser exitoso. A política do mundo atual é, na sua dimensão comunicativa, um jeito de manipulação emocional.

Para o reintegracionismo avançar socialmente, que ações ou áreas seriam mas mais importantes?

Eu acho que a estratégia atual de organizações reintegracionistas como a AGAL vai na direção correta. Na minha opinião, os problemas elementares são, no mínimo, três, e estão interligados: sensação de alteridade a nível social; pouco apoio institucional e baixa presença no espaço público galego, consequência dos dois anteriores.

Nas últimas décadas o reintegracionismo tem evoluído de uma corrente intelectual circunscrita a poucos círculos culturais para um movimento social sensivelmente mais amplo, aproveitando os meios digitais e os espaços reivindicativos para a sua difusão. Eventualmente, isso poderia conduzir a um círculo virtuoso em que o próprio aumento da sua base social incremente a preocupação institucional e, enfim, as possibilidades de crescimento. Para isso, da minha perspetiva, o movimento vai precisar de aprofundar no seu carácter social e politicamente transversal, o que neste momento ainda não é uma realidade.

Porque decidiste tornar-te sócio da Agal e que esperas do trabalho da associação?

Porque, como foi exposto anteriormente, o reintegracionismo parece-me uma das estratégias mais exitosas para conseguirmos viver na nossa língua de jeito completo e satisfatório. Quero ajudar outras pessoas a conhecê-la e, se calhar, beneficiar-se das suas vantagens.

Em 2026 somamos 45 anos de oficialidade do galego. Como valorizarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Estamos a viver uma situação paradoxal em que o galego tem mais ferramentas institucionais do que nunca antes para a sua normalização e, ao mesmo tempo, está provavelmente no pior cenário linguístico que já experimentou. Durante séculos, a nossa língua foi excluída dos canais formais de difusão, mas manteve-se como o idioma maioritário da população. Hoje começa a dar-se o contrário: o galego tem relativa presença institucional e nos círculos culturais… mas é socialmente minoritário. Os dois cenários não são igual de preocupantes. O primeiro implica um problema institucional que pode mudar com relativa rapidez, e do que temos muitos exemplos em países que viveram processos de independência ou descolonização. O segundo é uma ferida sistémica, estrutural, que requer de estratégias não menos profundas. Há poucos exemplos históricos de línguas que perderam a sua base social e foram depois recuperadas.

As causas disto são muito diversas, e implicam fatores históricos -provavelmente os mais importantes, pela inércia- políticos, sociais, económicos e, cada vez mais, demográficos. Mas é claro que as instituições autonómicas galegas, controladas durante décadas em regime de quase exclusividade por um partido político determinado, demonstraram nestes 45 anos que a preservação da língua não é uma prioridade para elas -abonda consultar os orçamentos da Junta. Podemos vê-lo deste jeito: a Galiza precisa de tombar um grosso muro histórico que cresce mais cada dia. Para isso podia dispor de um martelo pequeno, ou até de uma picareta. A Junta decidiu sentar ao sol e deixar atuar o Espírito Santo.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Sonhar é de graça. Por gostar, gostaria que fosse o de um país com uma língua galega normalizada e distante de qualquer perigo, integrada no ecossistema lusófono internacional e em convivência real com outros idiomas minoritários dentro do seu território. Porém, se somos realistas, o cenário mais otimista, partindo das circunstâncias atuais, é o de um decrescimento ligeiro, suficientemente contido para não perder toda a sua legitimidade social e ainda manter, pelo menos, a oficialidade.


Conhecendo Xosé Carlos Veiga:


Um sítio web: web.archive.org
Um invento: As vacinas.
Uma música: Che sia buona vita, de Ornella Vanoni, Idan Raichel e Paolo Fresu.
Um livro: Behave, do Robert M. Sapolsky.
Um facto histórico: Diego Gelmíres a fugir pelos telhados de Compostela, disfarçado de mendigo.
Um prato na mesa: Qualquer um, se a companhia for boa.
Um desporto: Artes Marciais Históricas Europeias (HEMA).
Um filme: Europa, Europa, da Agnieszka Holland.
Uma maravilha: Costa da Morte.
Além de galego/a: cristão e cientista.

Comentários estão fechados.