
Iago Avale é viguês e logo tivo contacto com o mundo galeguista graças ao Bar Hipólito. A sua formação é em turismo e julga que na Galiza se está a promover sem um planeamento adequado. O avanço do reintegracionismo será com o movimento associativo e cultural. Considera que o espanhol e tudo o que representa foi um cancro para o desenvolvimento da nossa língua e que triunfou o modelo isolacionista porque queriam que a língua que se ensinasse não incomodasse a língua espanhola.
Iago nasceu em Vigo e a sua infância decorreu entre Vigo, Salvaterra e o Norte de Portugal. A sua língua materna foi o galego que desde muito cedo interagiu com outras variedades.
Sim, é certo. Desde que fum uma criança já tivem a consciência da existência da lusofonia e da língua portuguesa. Passei muito tempo em Monção, Valença e o Porto. O meu pai gostava muito de ir até a Casa da Música. Lembro-me de quando cruzava a fronteira para ir a Monção de irmos a uma taberna tradicional portuguesa que se chamava a taberna do Zé. Ou de ir a um hotel-convento par tomar um café e escutar falar de prendas. Também lembro as séries infantis que olhava na RTP ao ser zona de fronteira.
O teu pai era o dono do Bar Hipólito, nas ruas das Travessas, em Vigo, onde se juntavam as forças vivas do nacionalismo galego. O que nos podes contar a esse respeito?
O bar Hipólito era um estabelecimento onde proliferava a cultura por todos os recantos do local. O meu pai era um grande aficionado ao jazz e à música clássica. Fizemos de todo. Até um desfile de moda com roupa velha de oitenta de Gene Cabaleiro. O meu pai fijo o que quijo. Ali recebim a primeira bandeira do BNG de mãos do camarada Xosé Carlos Solla, histórico militante. A maior parte dos clientes do meu pai eram funcionários, assim que o galego que falavam era o oficial.
Como foi o teu conhecimento do reintegracionismo?
A minha relação com a língua galega vem de sempre. Mas, os meus conhecimentos sobre o reintegracionismo foram na adolescência e sempre passando de lado. A LOMCE reduzira de maneira drástica as horas de língua galega. E se não fosse suficiente, a maior parte do professorado de secundária eram alheio à modelo reintegrado. Então, a imagem que me foi transmitida não é a realidade, do ponto de vista dum moço agora adulto. É uma imagem muito intencionada. E espero não estar enganado, mas creio que deve ser uma situação bastante generalizada.
Estás a formar-te num Curso Técnico Superior em Animação Sociocultural e Turística. Quais as tuas motivações para teres enveredado por esta formação?
O curso de Animação Sociocultural é um curso muito abrangente que aborda diversas áreas: gestão cultural, desenvolvimento comunitário, informação juvenil, lazer e tempos livres e, por fim, no segundo ano, o Turismo. Esta foi uma adição introduzida pelo Governo de Rajoy no ano de 2016. Os motivos que me levaram a frequentar este curso são diversos, mas a vertente social foi a que melhor se adequou às minhas circunstâncias.

Em que medida o turismo cria identidades?
Depende do tipo de turismo que pretendamos. Se optarmos por um turismo de massas, para além do impacto ambiental, este não irá criar qualquer tipo de identidade. Se optarmos por um turismo sustentável, então poderemos falar de identidades. Neste momento, não temos definido que tipo de turismo queremos. E é assim que surgem os problemas que temos em Compostela, na costa atlântica… Tudo massificado. Isto é consequência de nos promovermos sem um planeamento adequado, o que é da responsabilidade direta da Junta da Galiza.
O turismo sustentável implica a preservação da natureza e dos espaços protegidos. Isso contribuirá para uma maior consciência ambiental e, consequentemente, para a valorização e proteção do património material e imaterial. Todos estes fatores podem contribuir para a construção de identidades, uma vez que permitem um melhor conhecimento dos lugares, aliado ao dever de os respeitar, bem como as línguas e as formas de expressão das comunidades locais.
Iago, uma estratégia, como a reintegracionista, como poderia avançar socialmente. Do teu ponto de vista, quais são as áreas mais significativas?
Neste momento, o principal é avançar na união cultural entre a Galiza e Portugal. E como podemos trabalhar? Neste momento, com os movimentos sociais, com as Universidades, com os liceus. Em suma, com o movimento associativo e cultural. Fazer ver aos galegos que existe a nossa língua, para além da fronteira do rio Minho, e fazer ver aos portugueses que a Galiza é essa irmã mais velha da língua portuguesa, como dizia Agostinho da Silva. Não há outro caminho. Enquanto a Galiza estiver dentro do Estado espanhol, pouco podemos fazer. Podemos reclamar a aplicação da Lei Paz-Andrade de uma vez por todas, que leva dez anos sem se cumprir; trabalhar muito mais a lusofonia nos centros de ensino; reclamar validações de títulos e estudos para nós podermos estudar em Portugal e não ter de pagar por tradução juramentada. Isto passa por redes entre Universidades e pelo apoio a associações como a AGAL (Associaçom Galega da Língua). Há uns anos falou-se das emissões de rádio e televisão em Portugal e na Galiza. E a minha pergunta é: para quando? E sobretudo assumir que o galego e o português são a mesma língua. E a partir daí os passos dão-se sozinhos.
Porque te tornaste sócio da Agal e que esperas do trabalho da associação?
Precisamente porque é a única forma de trabalhar pela lusofonia e porque eu estou a favor de estar do lado dos países lusófonos. O espanhol e tudo o que representa sempre foi um cancro para o desenvolvimento da nossa língua. Há que recordar que quem fez a normativa ILG-RAG foi um asturiano, rejeitaram-se as teses de Carvalho Calero. Porquê? Porque queriam que a língua que se ensinasse não incomodasse a língua espanhola. Eu tive de ouvir barbaridades como que as crianças não conseguem perceber bem o português. Eu fui criança e entendi-o perfeitamente. Não precisei de um dicionário.
Em 2026 somamos 45 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?
Os processos das línguas são sempre abertos. Se uma língua não está viva, em constante discussão, é porque está morta. O processo de normalização foi muito débil e a maior debilidade é a Lei de Normalização Linguística, que nem sequer tem corpo sancionador. Não se avançou em todos os campos e resta muito por fazer na justiça, na saúde, nos cartórios, na Administração Geral do Estado…
Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?
Uma Galiza unida à lusofonia. Não peço mais.
Conhecendo Iago:
Um sítio web: pgl.gal
Um invento: os livros, por ser transmissores da cultura.
Uma música: Tanxugueiras, Gisela Joao e os NAPA.
Um livro: Sempre em Galiza de Castelao, Novas cartas portuguesas das três Marias e a magna História da literatura portuguesa do Saraiva-Lopes e do seu grande homónimo Carvalho Calero Historia da literatura galega contemporánea.
Um facto histórico: 25 de abril.
Um prato na mesa: cozido e bacalhau em todas as variedades.
Um desporto: o futebol. Vejo a liga portuguesa.
Um filme: as bestas. Ainda que não é o meu forte o cinema.
Uma maravilha: a casa de Rosalía em Padrão, Porto e Lisboa.
Além de galego: Além de galego, sou lusófono. Gosto da língua portuguesa em todos os seus sotaques.
