Meri Martins: “Existe umha forma de escrever a língua que a fai mais ampla, rica e diversa”

Meri é murciana e logo se tornou galegofalante. Sentiu-se bem recebida e o facto de falar galego não deixa indiferente, sobretudo no seu trabalho de professora em educaçom infantil. Para o seu contacto com a estratégia reintegracionista foram importantes as escolas Semente. Em 2050 gostaria de ser respondida em galego sempre.

Meri Martins Espinhosa chegou de Múrcia há uns anos. O que te levou a desembarcar na que chamam “periferia”?

Suponho que o desejo de dar um grande mudança — daquela tinha vontade e energia de começar do zero —, estava um pouco estancada a, e uma amiga figera parte do Caminho de Santiago naquele verao e inspirou-me a fazer o Caminho Francês (da França). Em dezembro desse ano, estava totalmente instalada num quarto dum bonito apartamento na rua dos Concheiros. Vim atraída pela natureza, uma paisagem muito diferente do deserto murciano, mas, ao chegar, apaixonei-me pola língua, pola cultura e pola tradição, pola riqueza e polos matizes de cada zona… Até o dia de hoje, continuo impressionada por tudo o que esta terra e a sua gente tem para oferecer.

Como foste recebida pela sociedade galega? 

Eu fui muito bem acolhida. O facto de mostrar interesse pola cultura, tradiçom e língua ajudou-me muito. Também é de salientar a generosidade do povo. Para mim, foi um começar do zero no pessoal, mas também implicou uma reorientaçom profissional. Considero que Compostela é uma cidade aberta e diversa, adequada para fazer este tipo de mudanças. No meu caso, de quase cada formaçom, curso, voluntariado, trabalho e atividade que fiz, ficaram pessoas que passaram a fazer parte da minha particular família galega. Isto facilitou muito que decidisse desenvolver a minha vida aqui e vai despertando um certo sentimento de pertença à comunidade.

Como é recebida uma pessoa natural de Múrcia que se expressa em galego? 

Polo geral, espeto muito orgulho na gente que me conhece. (Encanta-me esta pergunta por quê estou a reflexionar sobre o tema). Num primeiro momento, quando estava a aprender, incorporando algumha palavra ou imitando algumha expressom, sempre sentim muito ânimo da gente galegofalante para continuar; via que os meus esforços eram recompensados.

Agora, para mim escolher que todas as minhas interaçons sejam em galego facilita que, por exemplo, em contextos laborais ou espaços desconhecidos nom haja dúvida de que “som daqui” e portanto me sinto integrada podendo preservar a minha intimidade. Por outro lado, observo que pessoas galegas bilingues que se desenvolvem em castelhano comigo, podem dar-se permissom para falar em galego. Neste sentido, as pessoas de fora podemos contribuir para liberar essa connotaçom negativa que se tem a respeito da língua.

Meri é professora de infantil. Em que medida é um desafio interagir com as crianças em galego? 

A dificuldade é polo ambiente e o contexto onde se desenvolvem as crianças. Trabalhei em centros onde o contacto coa língua galega por parte dos meninhos e meninhas dava-se exclusivamente no centro educativo, e graças ao interesse da AMPA e da direçom em que assim fosse. Nalgum centro que fiz substituiçom era a única pessoa galegofalante (dizia que era de Múrcia para induzir um pouco à reflexom ;)).

Realmente a lei atual nom protege o galego e creio que por isso se dam estas circunstâncias. Também tenho que dizer que nunca fum questionada por decidir trabalhar em língua galega e  diria que num número elevado de centros a língua veicular é o galego.

Ao trabalhar com crianças pequeninhas observo como o processo de apego cara a um profissional, que passa a ser um novo referente na sua vida, dá-se em paralelo à vontade de falar a língua que essa pessoa fala, seja repetindo frases ou imitando palavras. Por isso, para mim é muito gratificante quando alguma criança castelhano-falante me associa a palavras ou expressons em galego que eu utilizo, ou a família diz-me que canta na casa alguma cançom que eu lhe ensinei 🙂

Em que momento contactas com a estratégia reintegracionista? Porque foste escorregando nessa direção?

Penso que foi quando estava na formaçom de educaçom infantil, quando entrei em contacto com os diferentes centros educativo que existem no país, e as suas linhas pedagógicas, soubem das escolas Semente. Reconheço que num primeiro momento nom entendia por que escreviam diferente. Admito que até há pouco nom tinha muito claro que significava isto do reintegracionismo, quando por casualidade conhecím pessoas vinculadas ao movimento.

Porque foste escorregando nessa direção?

Porque sim. Amo a língua, portanto aprender a escreve-la no formato internacional é algo que me entusiasma fazer, e expandir assim as possibilidades comunicativas tanto na vida como no mundo virtual. O galego ILG-RAG tem uns espaços e recursos mas revela-se por vezes “limitador”. Sendo assim, entre configurar um aparelho ou app em castelhano ou português, escolherei o formato mais parecido da língua que falo e assim com tudo, já que nom existem opçons em galego ILG-RAG muitas vezes.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente?

Honestamente, nom sou capaz de responder a essa pergunta, nom se me dá bem a açom política. Creio que cada pessoa deveria questionar as suas escolhas em base aos seus valores e possibilidades, mas umha coisa que se pode fazer é normalizá-lo, quer dizer, escrevendo com este formato na comunicaçom pessoal (mensagens de texto, notas, diários…).

Em que medida o contacto com a cultura portuguesa, brasileira (músicas, contos….) no ensino primário pode ser útil para as crianças valorizarem o galego? 

Obviamente seria muito favorável. Fico com a ideia para procurar recursos para as aulas 😉 Mesmo precisamente polas diferenças entre as culturas lusófonas e que dá essa sensaçom de riqueza e variedade.

Que te motivou a te tornar sócia da AGAL e o que esperas do trabalho da associação?

Fazer umha humilde achega em favor do galego, fazer chegar à gente que há umha forma de escrever a língua que a fai mais ampla, rica e diversa e que qualquer pessoa pode optar por ela.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Por sonhar, que decerto nesse ano eu serei já muito mais velha e as crianças que conheço agora serão pessoas adultas novas, desejo que todas as pessoas que vivam na Galiza saibam falar a sua própria língua e que seja respeitada, valorizada e cuidada. Assim gostaria muito de ser “respondida” em galego em qualquer interaçom, em qualquer lugar e situaçom.

Conhecendo Meri:

Um sítio web: dballengalego.es
Um invento: o robô aspirador
Uma música:  fusom-tradicional
Um livro: o principezinho
Um facto histórico: gosto das pequenas conquistas do dia a dia
Um prato na mesa: uma tortilha de patacas
Um desporto: correr conta? ah! e montanhismo?
Um filme: a cançom do mar
Uma maravilha: o sol-pôr
Além de galega: murcianica!

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