José Eixo: “Recomendaria estudar português todos o galegos que tenham interesse em falar um bom galego”

O nosso caro sócio nasceu em Cacheiras, concelho de Teio, num ambiente galegofalante. Depois veio a escola. Que recordas da tua «biografia linguística» antes de te formares na universidade?

Até começar na escola, na casa falava galego com a família. De 6 a 9 anos fui à escola de Cacheiras, escola rural com uma única aula para os meninos de 6 a 14 anos (as raparigas estavam em aula separada). A língua de comunicação era o galego, mas o mestre era que falava sempre em espanhol.

Com 9 anos comecei estudos no Peleteiro até os 14. De 9 a 12 ia de autocarro da aldeia até a escola. De 12 a 14 já morava perto da escola e podia ir caminhando porque, quando tinha 12 anos de idade, a família mudou-se para viver em Compostela (pai, mãe, 4 irmãos e a avó).

De 14 a 17 estudei 3 anos no Gelmirez (no velho, onde está agora a administração da Junta). Nesse tempo de estudos secundários só mantive o galego em casa e com os amigos da aldeia, as aulas e amigos na vila falavam a maioria em espanhol. No Gelmirez alguns mais que no Peleteiro utilizavam o galego, mas a língua de comunicação habitual era o espanhol.

Foste professor de Matemática até te reformares. Muitas vezes, a universidade, pelo menos em Santiago, é um espaço que favorece mudanças linguísticas. Foi o teu caso?

Sim, estudei na Faculdade de Matemática de 18 até 24. As aulas eram quase todas em espanhol. As amizades também quase todas em espanhol, mas foi aí que comecei a usar o galego com mais frequência mesmo com as amizades. Não sei se a universidade ajudou, provavelmente a idade, e o momento político desses anos 1977-1982, começando a democracia no estado.

Outro espaço que pode ser significativo do ponto de vista linguístico é o da vida conjugal. Casaste-te aos 26 anos e és pai. Como foi a ecologia linguística da tua família?

A minha mulher é falante de espanhol. Nesse momento, quando casei, decidi não falar mais em espanhol pensando nos filhos futuros e assim fiz. Eu falo galego com a minha mulher e ela fala espanhol comigo. Da sua parte não é uma questão de negacionismo, é difícil de explicar, mas para mim é fácil de compreender, ela, que mesmo tem votado na esquerda nacionalista, não se sente bem falando galego, diz que fala mal, eu animo-a a dar esse passo, mas nunca foi capaz de dá-lo. Os meus filhos falam galego comigo e espanhol com a mãe (agora a filha, que mora em Madrid, também fala galego com a mãe).

Formado em Matemática, tornaste-te professor de Matemática em 1984, o que passou a constituir um desafio a partir de 2010, com o malfadado Decreto do Plurilinguismo. Como o enfrentaste?

Aos 26, no 1984, aprovei o concurso para ser professor de Matemática num Liceu de Formação Profissional. Desde o princípio utilizei o galego nas minhas aulas, mesmo depois de 2010, em que o governo galego promulgou o decreto contra o galego, que deram em chamar, do plurilinguismo. Sempre utilizei o galego nas minhas aulas, até a minha reforma no ano 2022.

Mesmo fiz um reconhecimento público do que estava a fazer, não seguir a norma aprovada pelas autoridades políticas, em redes sociais e mesmo numa entrevista que me fez a Televisão de Catalunha, TV3, gravando nas minhas aulas.

Foste professor na Estrada. Que línguas se falavam nas tuas turmas?

Quando cheguei à Estrada, onde fui professor todos esses anos, quase o 100% dos alunos e alunas do Liceu eram galego falantes. Quando fui embora, no ano 2022, muito menos da metade falam em galego.

És aluno de Português na EOI de Compostela. No próximo ano vais frequentar o nível C2, a cereja no topo do bolo. Porque decidiste fazer este percurso? A quem o recomendarias?

Ao reformar-me, no 2022, quis melhorar o meu galego e matriculei-me na EOI para cursar Português. Acho que algo melhorei mas também serviu para manter a mente ativa em questões de tipo linguístico.

Recomendaria a todos o galegos que tenham interesse em falar um bom galego e manter e melhorar a relação com os nossos irmãos de Portugal.

Estás muito ligado ao teatro e até tens encenado em Portugal. Fala-nos dessa experiência.

Sempre gostei do teatro. Fiz as primeiras obras na paróquia, quando adolescente. Depois, aos 40, fiz cursos de teatro, mas não atuei. Foi no ano 2012 que chegou ao Liceu um professor, de Palas de Rei, que fez um grupo de teatro na escola e eu incorporei-me a essa atividade, mesmo me levou para o seu grupo de Palas e ali continuo. O grupo é Metátese Teatro e as obras que apresentamos são sempre em galego. Mesmo organizamos um evento que se chama Son d’aldea, em que mais de 100 atores e atrizes, amadores, gente da aldeia, apresenta cenas da vida no rural, situadas na metade do século passado. É no primeira fim de semana de setembro.

Como bem dizes, atuamos em 2024 em Idanha a Nova, já que ali temos uns amigos e amigas amantes do teatro. A obra foi apresentada em galego, mas eu apresentei o meu papel em português. Gostei da experiência e tive felicitações do público pelo esforço feito.

O que te motivou a tornares-te sócio da AGAL?

Conhecia a existência da AGAL de anos atrás mas não conhecia as pessoas que trabalham nesta associação, mas agora na EOI coincidi com alguns deles e quero colaborar no que seja possível.

O que seria necessário para que uma visão internacional da língua tivesse maior presença social? Em que âmbitos consideras mais importante atuar?

Seria necessário atuar em muitos âmbitos, o mais importante o sistema educativo, que deveria ser todo em galego mas também seriam necessárias campanhas de consciencialização para recuperar o prestígio e o amor pelo que é nosso.

Em 2026 assinalam-se 45 anos da oficialidade do galego. Como avalias esse processo? O que foi o melhor e o que foi o pior?

Ao princípio parecia que a oficialidade levaria a que o galego chegaria a ser falado por toda a população, que deixaria de ser uma língua de segunda, que as pessoas respeitariam o que nos transmitiram os nossos antepassados, mas o resultado não foi ótimo, muita gente continua pensando que o galego não serve para nada, que não é importante mantê-lo. Penso que todos os setores sociais deveriam por-se de acordo e reiniciar o sistema. Mas tenho muito poucas expectativas.

Há muitas coisas negativas, sobretudo que o partido político que governa não quer perder votos à sua direita, dos que odeiam o galego e não faz nada por legislar a favor da nossa língua, antes ao contrario, faz muito por que vaia a pior. Só melhoraremos se houver uma mudança de de governo.

Como gostarias que fosse a «fotografia linguística» da Galiza em 2050?

O negativo da fotografia atual. Que se cumprissem as expectativas de 45 anos atrás, que a gente falasse galego de forma normalizada, que pudéssemos ter unha vida plena só em galego (conhecendo e respeitando as outras línguas do estado).

Para conhecer melhor José Eixo

  • Um sítio web: https://sondaldea.es/
  • Um invento: Tudo o que permite a comunicação entre pessoas e melhoras tecnológicas: computadores, Internet, Redes, IA…
  • Uma música: Rosalinda, cantada pelo Fausto.
  • Um livro: O principezinho.
  • Um facto histórico: A morte do ditador Franco.
  • Um prato: Ovos fritos com chouriço e batata.
  • Um desporto: Futebol (qualquer equipa galega).
  • Um filme: A Golpada (Paul Newman e Robert Redford).
  • Uma maravilha: O Universo.
  • Além de galego: O português.

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