Lucas de Fontela é de Castroverde. Estudou Jornalismo em Compostela e nessa ambiente estudou mais coisas fora do roteiro. Ora, Compostela, infelizmente, não tem mar. Professor do secundário, repara como a línguas dos iguais apaga a língua periférica. No ano passado conclui o C2 na EOI e encoraja as pessoas a fazerem esta formação. Acho necessário um comboio que nos ligue com as pessoas do outro lado da raia.

Lucas nasceu no interior luguês, Castroverde, no verão de 93 e viveu desde pequenino em Viveiro, na Marinha. O teu idioma ambiental era o galego, em que medida?
Na casa sempre foi o idioma natural e mantive-o sem refletir no facto linguístico, embora o contexto do povo e o das escolas discordasse (enquanto paradigma diglóssico de qualquer vila média galega, quero dizer).
A universidade tem a magia, por vezes, de despertar interesses e entusiasmos. Foi assim no caso da língua?
Sim, e entendendo a uni também como as ruas, e a língua num rumo amplo! Eu estudei Jornalismo, não Filologia, mas a coisa da fala sempre esteve aí. Foi lindo comprovar que aquilo das isoglossas e variantes dialetais que estudávamos nos manuais era certo ao colidir e combinar com colegas doutros espaços. Também foi bom conhecer as pessoas e teorias detrás daqueles grafitis com NH e LH nos muros, e também questionar os jeitos de falar do ponto de vista do poder, do género, da classe… Acho que é um dos grandes valores da universidade e que em Compostela foi fixe experimentar. Oxalá que a cidade continue a ser esse lugar para a mocidade.
Atualmente moras em Compostela mas com muitas saudades do mar.
Com certeza! Agradeço imenso o conhecimento da terra que me dão as raízes, contudo… adoro a costa. O meu avô Ramón contava um conto: “Há tempos chegou um americano ao Obradoiro e ficou maravilhado com o colar de pedra que decora o “hostal dos reis católicos” no alto da fachada, feito à maneira duma cadeia contínua disque duma só peça de granito. Prometeu que se lho deixavam levar para a América, ele traria o mar até Santiago…”.
A piada é até controversa porque se calhar o próprio consumismo ocidental sobe a água cá num tempinho… mas sim, gostaria de viver rente à praia. É saúde: é, dalgum modo, um limite e mais… é vida pá!
Lucas é professor de secundário. O que vê um professor que não vê o resto quanto ao mapa linguístico e as suas mudanças?
O professor repara em que a escolha idiomática (com acontece com qualquer preferência) é pura moda e adaptação aos iguais — além das escolhas normativas, há o inconformismo com o ‘padrão” e o compromisso com outras opções, bênçãos! —.
Depois, o papel das políticas está em lerem esta fotografia (80% das crianças-adolescentes não falam o idioma próprio da sua comunidade, e a tendência dos dados objetivos é a queda), identificarem as suas origens (território sem estado, aceitação da assimilação linguística do castelhano e do ‘livre arbítrio’ nessa conjuntura), e modificá-la quando julgar necessário para o bem comum (fomento do uso, seja através do ensino ou fora dele), mas acho que a população não está a ligar muito para isto, não consideramos (generalizando, claro) um ‘problema’ a perda da língua própria. É assim.
Lucas estudou português na EOI. Concluiu o C2 neste ano letivo. São muitos anos de dedicação. Que é o que mais nos atrai, as aulas, a matéria, a turma? Como aliciarias uma pessoa a estudar português?
Amor infinito às professoras excelentes que tive na escola de idiomas de Compostela: Uxía Castro Fondo e Valentim Fagim. Atenciosas, encorajadoras, desafiadoras, e verdadeiramente profissionais… As melhores que tive na vida, quero dizer junto com o professor Froilán Liz, de ciências sociais, quem nos ensinou a viver no secundário; e com a Chus Méndez, quem me preparou a partir da empatia e a rigorosidade académica para o concurso público e para a docência. Aliás, também amor para as colegas de turma que fizeram com que usufruísse das horas que passei nas aulas de português com aprendizagens, debates e risos.
O estudo é bom quando parte da motivação: seja a que ela qual for (laboral, ideológica, social…), vão avante porque vão gostar dessa equipa!
Lucas vive o galego fora da caixa, como uma língua internacional. Quando ocorreu essa descoberta?
Se calhar o professor de língua no bacharelato já nos avançara algo nisto, depois as ruadas universitárias de que falávamos, um livro cá e outro lá sobre o tópico, umas aulas de português na Gentalha do Pichel com a Carme Saborido, alguma viagem a Portugal que me fez cogitar naqueloutras que já fizera com a família…
É ótimo aperceber-se de que, com somente algumas dicas e vontade, é possível chegar a tantos lugares com os quais temos vínculos de entendimento. Todavia, quando viajei a Cabo Verde também dei com uma realidade: lá a lingua mãe é o kauberdianu. Não convém demorarmo-nos em narrativas colonialistas ao falarmos de lusofonia, sim em estabelecermos contactos internacionalistas, o mesmo que temos com outros povos por outros motivos: o latino, o espaço do celtismo-atlantismo…
Se a ideia é haver cada vez mais pessoas a viverem o galego como parte do português, que áreas ou medidas julgas serem mais significativas?
Um comboio que continue o “eixo ocidental” pela costa portuguesa (porém: antes concertem o da Marinha, é mais prioridade! kk), estudo regular da variante portuguesa por parte de todo o alunado no ensino básico (podemos discutir se fazendo parte da matéria de Galego ou como disciplina à parte), e envolvimento do campo cultural para trazer mais mostras que possamos compreender e ampliar os nossos horizontes (livros, filmes… em português/brasileiro/a variante que for do idioma).
O que te motivou a tornares-te sócio da AGAL. O que esperas do trabalho da associação?
A vontade de que não esmoreça o debate reintegracionista, a alegria por poder abrir mais portas aos mundos, e um correio eletrónico do Fagim…
Não sou muito dogmático no tema, eu mesmo tenho o meu próprio feitio ortográfico quando escrevo as minhas coisas, nos meus wasapes… Utilizo o nh/lh, terminações nasais em -m, acentuação e hífenes à portuguesa… mas por exemplo não ligo para as diferenças g/j/x ou ç/s/ss que os galegos já não fazemos na oralidade, escrevo tudo com xis e esse… Matem-me, filólogxs… kk
Também gosto dos coloquialismos e estrangeirismos, de revirar as palavras, brincar com elas… Quero dizer, sou reintegracionista porque acredito que é a opção que faz mais sentido no etimológico-filológico, mas realmente milito nisto porque acho que é um símbolo político para repararmos na nossa história (no duplo sentido de ‘reparar’) e agir.
Em 2026 somamos 45 anos de oficialidade do galego. Como valorizarias esse processo? O que foi o melhor e o que foi o pior?
Os números de falantes foram claramente para pior. E, a ligar com a anterior pergunta, também gosto do conceito do ensaísta Moreno Cabrera a falar da ‘lingua desnuda’ como crítica ao grafocentrismo no estudo dos idiomas e como ideia para valorizar a espontaneidade oral dos falares como a essência dum idioma. É por isto que, ainda que tenha havido alguns avanços na normalização de determinados usos e funções do galego, o fulcral continua a deteriorar-se: se aceitamos que a língua vive, antes de mais, na oralidade quotidiana dos seus falantes, então os dados apontam para uma realidade pessimista.
Quando não ligamos para a questão linguística, eu sinto o mesmo que quando desleixamos medidas sociais: os que acreditamos nesses percursos estamos a fazer algo mal, no sentido de não estarmos a convencer duns caminhos que, do meu ponto de vista, são tão claramente benéficos para a gente toda.
Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?
Rapaziada derivando subconscientemente palavras galego-portuguesas para adaptá-las aos seus interesses e chanças, e população migrante integrada no idioma. Antes disso/para isso, ensino monolingue em galego em todas as etapas, a incluir um sistema de acolhimento efetivo e afetivo para as pessoas chegadas do além idiomático, e envolvimento dos tecidos desportivos e económicos referentes desde o pequenino, além do cultural. E personalidade, sem isso não há nada.
Conhecendo Lucas de Fontela:
- Um sítio web: chatgpt
- Um invento: qualquer palavra nova que faça rir
- Uma música: ‘Get your brits out’ ou ‘Liar´s tale’, dos Kneecap
- Um livro: Morgana en Esmelle, de Begonha Caamanho
- Um facto histórico: está por chegar
- Um prato na mesa: cachopo com batata frita (puxa Asturies!)
- Um desporto: trail run (corrida de montanha) e basquete
- Um filme: acabo de ver o do Gila (¿Es el enemigo?) e gostei muito
- Uma maravilha: o verão na Galiza
- Além de galego: cantábrico

