Jorge Mendes: “Um português que é exposto ao galego e à sua realidade e história se torna automaticamente num amigo do galego e da Galiza”

Jorge Mendes nasceu numa aldeia de Guimarães. Os seus avós diziam homes e atopar, entre outras palavras comuns na Galiza. Em geral, acha que a ignorância em Portugal com a língua da Galiza é comum, mesmo no Minho. O seu primeiro livro da Através foi O Galego e o Português são a mesma língua? do Marco Neves, a que seguiram outros. Julga que seria benéfico que o centralismo português fosse bem mais relaxado e permitir que o Norte coopere de forma mais autónoma e profunda com a Galiza.

Jorge Mendes nasceu nos anos 70, no Minho rural, numa aldeia de Guimarães. O que está a mudar nas falas daquela zona se contrastarmos a sua infância com o presente?

Na minha infância, no início dos anos 80, a taxa de escolarização entre os mais velhos era muito baixa. A geração dos meus avós tinha um elevado índice de analfabetismo literal ou funcional, e o contacto com os meios de comunicação social de muitos dessa geração era escasso. Falavam portanto um português notoriamente diferente daquele que ouvimos nos meios de comunicação, um português com “homes” em vez de “homens”, com “atopar” em vez de “achar”, com “pinchar” em vez de “saltar” e também “imos” em lugar de “vamos”. Eu atribuía nessas diferenças à falta de escolaridade das pessoas, pensava tratar-se de um português corrompido. Novas gerações vieram e o ensino generalizou-se. Os meus pais já são escolarizados mas ainda mantêm muitos traços do dialeto minhoto. A minha geração foi a primeira a ter acesso pleno à rádio e à televisão, e isso transmitiu-nos a língua de prestígio que irradia a partir da capital. Na comunicação social, mesmo local, e na comunicação administrativa, faz-se um esforço para um alinhamento com o português que se julga correto, o das pessoas importantes da televisão. O sotaque e o dialeto minhotos estão mais disfarçados, mas não ainda extintos. Nos contextos informais muitos de nós automaticamente voltamos ao falar da nossa infância, no qual nos sentimos mais autênticos.

Morando a 60 km da Galiza, qual a sua visão do nosso território e da realidade linguística deste?

A minha visão da Galiza, durante os 30 anos que morei no Minho, foi difusa até uma certa altura. Havia excursões para ir às compras a Vigo, “ir a Espanha” como se dizia. Captávamos na TV os canais espanhóis da TVE desse lado da fronteira, compravam-se antenas especiais para esse efeito, o que reforçava a ideia que a maior parte dos portugueses ainda têm, de que Espanha é um país uno como Portugal, e como tal tem uma língua que é o espanhol. Nas fugazes travessias da fronteira até Vigo tampouco me ficou ideia diferente. Aqui e ali ouvia ecos de um dialeto galego, mas que eu pensava ser um dialeto de espanhol. Julgo que não era apenas desconhecimento meu, e sabendo mais hoje, vejo que a ignorância sobre o galego ainda grassa, mesmo no Minho. Quando alguém nos fala num bom galego será quase certo que essa fala será interpretada como português do Norte ou como um esforço de falar português.
Certo dia, ia eu pelo concelho de Caminha, como canta Sérgio Godinho, e captei uma rádio em que se falava um “português” bem familiar, parecido ao da minha zona, o que me confundiu pois as rádios locais tentam emular o português de Lisboa, geralmente. Ouvindo um pouco mais apercebi-me de uns “espanholismos” no falar dos locutores, e foi nesse momento que tive a epifania daquilo que afinal poderia ser o galego. Esse momento foi determinante para que me interessasse com o que se passava com a língua do lado de lá do rio.

Certo dia, ia eu pelo concelho de Caminha, como canta Sérgio Godinho, e captei uma rádio em que se falava um “português” bem familiar, parecido ao da minha zona, o que me confundiu pois as rádios locais tentam emular o português de Lisboa, geralmente. Ouvindo um pouco mais apercebi-me de uns “espanholismos” no falar dos locutores, e foi nesse momento que tive a epifania daquilo que afinal poderia ser o galego.

Há três anos visita a Corunha e na procura de livros é-lhe oferecido um da Através, O Galego e o Português são a mesma língua? do Marco Neves. Chocante, não foi?

Sem dúvida, houve a feliz coincidência de estar a decorrer uma feira do livro ao ar livre na Corunha, e eu aproveitei para tentar encontrar livros sobre a língua galega, em galego. Numa das lojas foi-me oferecido esse livro, escrito em português, de um autor português e editado pela Através, uma editora galega. Como se já não bastasse de estranheza, o livro ainda colocava essa hipótese provocadora de o galego e o português serem a mesma língua. Como assim? Várias questões me ocorreram: Se o fossem mesma língua não estaria a Galiza equiparada aos outros lugares do mundo de língua portuguesa, que todos os portugueses conhecemos de memória e estudamos na escola? O livro ajudou-me a compreender a história e as complexidades envolvidas no tema, e na minha mente ficou clara a resposta à questão que o título do livro coloca. O autor ganhou um fã, e a Através um leitor, porque havia muito mais para descobrir a partir desse ponto inicial.


O Jorge Mendes é um leitor assíduo da Através Editora cujo livros compra na loja Wook. Escolha dois ou três que recomendaria a uma pessoa portuguesa e indique-nos o porquê.

Depois do primeiro choque eu tinha de saber mais sobre essa coisa do galego, e sobre o movimento reintegracionista. Como é que isso existe e não se sabe em Portugal, quando exultamos com a entrada da Guiné Equatorial na CPLP onde sabemos que se fala tanto português como entre os pinguins da Antártida? Muitas questões. Onde procurar? A pista estava dada pelo livro anterior e foi na Através que procurei, tendo a felicidade de os livros estarem acessíveis em Portugal via Wook.
O que recomendo eu? Naturalmente o livro do Marco Neves já referido, mas também um outro a que tive acesso em formato digital: “O galego é uma oportunidade”. Pensei ao lê-lo:”este livro devia ser estudado nas escolas galegas”. Outro livro que estimo bastante na minha estante é “Antologia de textos para pensarmos a língua: Umha proposta didática”. É um livro que reúne textos importantes sobre os fundamentos do reintegracionismo e ajudou-me a consolidar um conjunto de ideias que encontrara dispersas noutras fontes. Não poderia deixar de recomendar aquele com o qual, sem ser proselitista, consigo demonstrar a galegos e portugueses o tanto que nos une: “Apelidos da Galiza, de Portugal e do Brasil: Chaves e segredos da nossa onomástica”. Até contém o meu apelido! Sei que excedo o que me foi pedido mas não posso deixar de recomendar “A imagem da Galiza em Portugal” e o seu irmão “A imagem de Portugal na Galiza”.

Como foi o contacto com a estratégia reintegracionista? Como se poderia alargar a outras pessoas em Portugal?

Como minhoto e como conhecedor das tais falas da minha terra, que afinal são tão próximas do galego, senti-me identificado e compreendi imediatamente que a codificação do galego numa norma em nada próxima às que são usadas nos países de língua portuguesa potencia a confusão e ilude a natureza da língua, tendo o efeito pernicioso de fechar o galego artificialmente ao mundo de língua portuguesa e aos conteúdos existentes nesse mundo, que em muito poderiam reforçar o galego e projeta-lo como o tal idioma extenso e útil, como afirma a frase feliz de Castelao que está afixada numa placa à entrada do castelo de Guimarães.
Penso que a melhor forma de chegar aos portugueses é ajuda-los a livrarem-se do desconhecimento, dos clichés e dos lugares comuns que envolvem o galego quando visto a partir de Portugal. Narrativas como a do português arcaico que em dado ponto se partiu em línguas separadas criam a ideia de o galego ser já algo remoto ao português, o que definitivamente não é o caso.
Deve-se promover o mais possível a interação dos falantes da variante galega com os das outras variantes, até se tornar algo normal e corrente. Já vão acontecendo iniciativas muito interessantes, potenciadas pela internet e que cumprem este desígnio – lembro-me de iniciativas da JUPLP, do “Apuntamento Lusófono”, de “O Centro”, ou das colaborações de youtubers galegos e portugueses.
O galego-português tornou-se um pouco mais evidente nas aulas de português em Portugal, principalmente no 10º ano, no qual se tratam as cantigas medievais. Porque não uma sensibilização aos professores de português(e já agora de galego) para que foquem um pouco mais este aspeto nas aulas? Já existe material muito bom, como o fantástico documentário “Pacto de irmãos” onde a relação do galego e do português é evidente. Eu estou convencido que um português que é exposto ao galego e à sua realidade e história se torna automaticamente num amigo do galego e da Galiza.

Desde há uns tempos reside e trabalha em Lisboa. Que ficou para atrás e que apareceu na sua frente?

O que ficou para trás foi a vivência da comunidade e maneira de ser do Minho, para além da família, claro. Há coisas na nossa maneira de ser no Norte que são diferentes, sem serem necessariamente melhores ou piores. Curiosamente reconheço muitas dessas características nos galegos à medida que os vou conhecendo mais e melhor, e não penso que tal seja coincidência. Pela frente apareceram oportunidades de progressão profissional e o conhecimento mais aprofundado das várias realidades do país e não só, uma vez que Lisboa atrai gente de todos os cantos de Portugal e muitos estrangeiros. Há contudo um centralismo que seria benéfico que fosse bem mais relaxado, para por exemplo permitir que o Norte coopere de forma mais autónoma e profunda com a Galiza.

Formado em gestão, depois tornado informático, em que medida é difícil sair dessas galáxias de sensações e entrar em contacto com o que está fora?

Sou um generalista e curioso por natureza. Mais do que um sacrifício, sair do âmbito técnico e profissional é uma necessidade. Nutro vários interesses e vou saltitando entre eles, sempre num equilíbrio precário e priorizando aqueles que me são mais caros. Este tema do galego é-me caro, pois penso que um galego saudável ajudará as falas da minha terra a manterem-se vivas, assim como a variante portuguesa é com certeza um grande esteio de suporte para o galego se for aproveitada como tal.

Qual a sua motivação para se tornar sócio da Agal? Veremos algum dia uma grupo organizado de agalistas em Portugal?

A minha motivação para me tornar sócio da Agal foi em primeiro lugar poder apoiar uma organização que me ajudou, desde os livros da Através aos vídeos do “Galego de todo o mundo”, com o seu trabalho em diversas áreas a conhecer a realidade do galego e a sua relação com o português. Reconheço esse trabalho como valioso e como tal achei que devia suporta-lo.
Penso também que a associação poderá ter o potencial para tentar que uma crescente aproximação económica, social e cultural entre Portugal e a Galiza seja feita, como deveria ser natural, em galego e em português. Seria para mim bastante triste que esta espécie de nova Galécia onde as relações económicas e sociais não distingam galegos e portugueses seja caracterizada por se comunicar num idioma que lhe seja externo, quando justamente tem um que é património de ambos os lados do rio Minho. Penso que um passo muito importante nesse sentido seria a efetiva aplicação da Lei Paz Andrade.
Um grupo organizado de Agalistas em Portugal? Porque não? Tudo o que ajude os objetivos do reintegracionismo, com o regresso do galego ao tronco comum que partilha com o português, é uma empresa meritória.

Como gostaria que fosse o conhecimento da Galiza em Portugal lá no ano 2050?

A resposta a essa questão é muito simples na verdade: gostaria que a Galiza fosse pelo menos tão conhecida e importante em Portugal como são o Brasil, Angola ou Cabo Verde entre outros no presente momento.

Conhecendo Jorge Mendes:

Um sítio web: ocentro.eu, onde galegos e portugueses partilham e conversam sem fronteiras.

Um invento: O computador

Uma música: “Redondo vocábulo” de José Afonso

Um livro: “Crime e Castigo” de Dostoiéviski

Um facto histórico: O pio latrocínio, apenas como um símbolo do contexto que levou à divisão de um povo.

Um prato na mesa: Massa à lavrador

Um desporto: Judo

Um filme: “Primavera, Verão, Outono, Inverno…Primavera” de Kim Ki Duk

Uma maravilha: O Gerês

Além de português: Galaico e europeu.

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